Remédios à base de maconha liberados pelo governo

07/01/2020 0 Por Redação CliqueFarma

Com certeza, você ficou sabendo da notícia de que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou na terça-feira 03 de dezembro, o registro e a venda de remédios à base de maconha para uso medicinal no Brasil. Em suma, isso significa que medicamentos com componentes extraídos da Cannabis sativa – como o CBD (canabidiol) e o THC (tetra-hidrocanabidiol) – poderão ser prescritos por médicos e comprados por pacientes em farmácias, desde que apresentem receita.

Depois de feita a publicação no Diário Oficial da União, a norma tem prazo de 90 dias para entrar em vigor. É importante salientarmos que trata-se de uma decisão que ainda não é definitiva: após 3 anos, a liberação será reavaliada. Este artigo vai abranger sobre as mudanças que essa decisão envolve, quem será de fato beneficiado e a função da cannabis para doenças específicas.

 

Mudanças

É verdade que desde 2014, é possível que pacientes façam uso de remédios como óleos à base de canabidiol. Uma vez que não há venda no país, no entanto, não adianta apenas que o médico faça a prescrição do tratamento: é necessário enviar um pedido à Anvisa para se obter o direito a importar esses produtos – o que encarece o uso e dificulta o acesso.

 

O portal de notícias UOL destacou que, a Anvisa já recebeu, desde 2015, 14 mil pedidos para importação de remédios à base de maconha. Só em 2019, foram 5.321 solicitações.

 

Hoje em dia também há um único medicamento à base de cannabis cuja venda é autorizada no Brasil: o Mevatyl, vendido a R$ 2.800 o frasco. A ideia é que, com a possibilidade de produção nacional e registro de novos remédios, essa alternativa de tratamento ganhe popularidade – o que significa um número maior de farmacêuticas investindo em pesquisa e produção. 

 

Projeções mais entusiastas estimam que as novas regras podem representar um aumento de R$ 4,7 bilhões no faturamento do setor.

 

Quem será beneficiado?

A motivação principal para a aprovação de remédios à base de maconha são pesquisas que apontam para bons resultados no tratamento de algumas doenças. Há registros clínicos de que tratar pacientes com medicamentos feitos de cannabis atenuou sintomas de distúrbios como epilepsia, dores crônicas, Parkinson, Alzheimer e, segundo testes preliminares, até mesmo o autismo.

Como vão funcionar as vendas?

Esses fármacos do tipo precisarão ser chamados de “produtos à base de cannabis”, uma categoria especial – não sendo incluídos, a princípio, na classe de medicamentos. O órgão argumenta que a escolha se justifica por falta de “segurança científica”: empresas ainda precisam testar a substância em mais estudos que comprovem sua eficácia e segurança.

 

O texto da resolução determina que os remédios podem ser apresentados em forma de comprimidos, líquidos ou soluções oleosas, seja para ser uso oral e nasal. Embalagens deverão levar uma tarja preta e não podem conter termos alternativos, como “suplemento” e “fitoterápico”, por exemplo. Além disso, farmácias de manipulação não poderão comercializar produtos à base de cannabis, que só podem ser vendidos por um farmacêutico.

 

Os medicamentos à base da planta devem ter concentração de até 0,2% de THC – composto químico que garante a sensação anestésica/alucinógena e que causa dependência. Dosagens com concentração maior que 0,2% de THC só poderão ser dadas a pacientes em estado terminal, ou que não tiveram melhora com nenhuma outra forma de terapia. 

 

Concentrações de maior valor precisarão, também, levar no rótulo a indicação de que o uso “pode causar dependência física e psíquica”.

Produzir continua sendo proibido

Duas resoluções estavam em avaliação pela ANVISA, acompanhe suas propostas:

 

Cultivo

Uma das resoluções a serem avaliadas tinha como objetivo a regulamentação dos requisitos técnicos e administrativos para o cultivo da planta com fins medicinais e científicos – desde o plantio até a fase de secagem e distribuição.

 

A resolução previa o cultivo somente em sistemas de ambiente fechado e por pessoas jurídicas. O cidadão comum (pessoa física), mesmo sendo o próprio paciente em uso do medicamento, não poderia ter pés de maconha em casa. Para cultivar, seria preciso ter uma autorização especial da Anvisa e supervisão da Polícia Federal.

 

Essa inspeção da agência reguladora exigiria, entre outras coisas, um rígido sistema de segurança com controle de acesso por biometria, alarmes e proteção de janelas duplas. Além disso, o local não poderia ter identificação externa.

A venda e a entrega da planta produzida seria somente para instituições de pesquisa, fabricantes de insumos farmacêuticos e fabricantes de medicamentos. O transporte teria de ser feito em veículos especiais.

 

A autorização para cultivo valeria por 2 anos, podendo ser renovada, e haveria uma cota de cultivo e controle de estoques e de liberação do produto.

 

Medicamentos

A segunda resolução tinha como objetivo definir procedimentos específicos para registro e monitoramento de medicamentos à base de cannabis, seus derivados e análogos sintéticos. Isso incluía os fitoterápicos.

 

A regulamentação se aplicaria aos medicamentos nas formas de cápsula, comprimido, pó, líquido, solução ou suspensão (misturas) com administração por via oral.

 

As próprias empresas deveriam pedir à ANVISA o registro para produção desses medicamentos. Atualmente, como citamos acima, há somente um medicamento com cannabis registrado no Brasil, o Mevatyl.

 

Não haveria uma lista prévia de doenças: a agência analisaria registro por registro, conforme os pedidos. Medicamentos já registrados em outros países deveriam apresentar relatório técnico de avaliação do remédio emitido pelas respectivas autoridades reguladoras.

 

O registro inicial teria validade de 3 anos e as renovações seguintes, de 5 anos. Geralmente, para os outros medicamentos, o primeiro registro já vale por 5 anos.

 

Depois de aprovado o registro, a empresa teria 30 dias para definição do preço máximo e 365 dias para colocar o remédio no mercado. A resolução já previa a venda em farmácias. 

 

A maioria deveria ser com retenção de receita médica, mas cada caso seria analisado individualmente.

 

Haveria, pela proposta, um monitoramento do mercado com fiscalização constante e canais de atendimento para dúvidas de consumidores.

Regras dispostas até então

Já era proibido cultivar a planta de cannabis em território brasileiro. A lei determinava que quem produzisse a cannabis para consumo pessoal estaria sujeito à prestação de serviços à comunidade e ao comparecimento a programa educativo, sem fazer ressalva ao uso médico.

 

Mas, nos últimos anos, a Anvisa e o Poder Judiciário já deram alguns passos no sentido de liberar o cultivo da planta para fins medicinais e científicos. Veja alguns deles abaixo:

  • Janeiro de 2015: Retirada do canabidiol da lista de substâncias de uso proscrito, abrindo caminho para facilitar a comercialização de medicamentos com a substância no país;
  • Março de 2016: Autorização da prescrição de remédios à base de canabidiol e THC no Brasil;
  • Janeiro de 2017: Registro do primeiro remédio à base de maconha no Brasil, o Mevatyl, droga já aprovada em outros 28 países;
  • Abril de 2017: A Justiça Federal na Paraíba autorizou uma associação de João Pessoa a cultivar maconha para fins exclusivamente medicinais;
  • Maio de 2017: Inclusão da Cannabis sativa na Lista Completa das Denominações Comuns Brasileiras (DCB) sob a categoria de “planta medicinal”.

 

A ideia das resoluções discutidas era que, ao regulamentar o cultivo da planta, cairia o custo da produção de medicamentos com base na Cannabis sativa, o que, consequentemente, reduziria também o número de ações judiciais para compra de remédios não registrados no Brasil.

 

Pacientes que sofrem de diversas doenças podem ser beneficiados com a mudança na regras, entre eles os que têm esclerose múltipla, autismo e dores crônicas oncológicas.

 

As propostas avaliadas em dezembro não previam a liberação do cultivo nem do consumo de maconha para fins recreativos.

 

Decisão final

 

Nessa mesma sessão que decidiu pela liberação dos medicamentos, o órgão optou por manter a proibição do plantio com fins medicinais no país. Isso significa que, a rigor, insumos para produção de medicamentos feitos de cannabis vão continuar sendo importados.

 

Isso significa que farmacêuticas podem fabricar no Brasil, mas não poderão manter plantações da cannabis para fins de pesquisa ou para abastecer sua produção. Ou seja, apesar da liberdade para o registro de novos produtos em território nacional, marcas continuarão precisando importar a matéria-prima semielaborada (nada da planta in natura) de países onde o cultivo é legalizado. Os custos para quem compra, então, tendem a permanecer altos.

 

Mas afinal, o que é canabidiol e para que serve?

O canabidiol é um composto químico encontrado na planta Cannabis sativa, conhecida popularmente como maconha, que, de acordo com estudos científicos, pode ser utilizado no tratamento de doenças e sintomas, tais como: epilepsia, dores crônicas de origem oncológica ou neuropática, espasticidade causada pela esclerose múltipla, náuseas e vômitos causados pela quimioterapia, inapetência, entre outros.

 

É verdade que, o canabidiol tem um amplo leque de ações, que provoca efeitos benéficos, alguns que podemos mencionar, são:

 

  • Causar um relaxamento muscular, contribuindo assim para alívio da espasticidade;
  • Possuir efeitos ansiolíticos e euforizantes, o que ajuda em casos de ansiedade e depressão;
  • Provocar analgesia, inclusive para dor neuropática e oncológica de difícil tratamento;
  • Diminuir a percepção da dor, levando a um aumento da tolerância à mesma ;
  • Possuir ação anti convulsivante;
  • Estimular o apetite;
  • Diminuir a pressão intraocular, o que pode ser útil em alguns casos de glaucoma;
  • Ter ação antiemética, atuando contra náuseas e vômitos;
  • Reduzir a saliva em pacientes.

 

Muitos desses efeitos ainda estão sendo melhor estudados para que seja possível garantir a eficácia e a segurança do uso do canabidiol no uso de diferentes doenças.

 

Uma pesquisa de 2017 mostrou a eficácia do uso do canabidiol no tratamento de crianças com epilepsia associada às Síndromes de Drevet e Lennox-Gastaut, com considerável redução das convulsões.

No Brasil, o Conselho Federal de Medicina, através da Resolução CFM Nº 2.113/2014, publicada no Diário Oficial da União de 16 de dezembro de 2014, seção I, p. 183, aprovou o uso compassivo do canabidiol para o tratamento de epilepsias em crianças e adolescentes resistentes aos tratamentos convencionais. No exterior, já existem medicamentos que utilizam o canabidiol há mais tempo.

 

O canabidiol é apenas um dos 80 componentes canabinoides presentes na Cannabis sativa e pode ser isolado ou sintetizado através de métodos laboratoriais seguros e confiáveis. É importante salientar que o canabidiol não produz os efeitos psicológicos e cognitivos característicos do 9-Tetraidrocanabinol (9-THC). Todavia, o uso do canabidiol está restrito apenas às situações em que os medicamentos já conhecidos não apresentam resultados satisfatórios (uso compassivo, excepcional). O composto ainda não estava registrado oficialmente como medicação, no Brasil.

 

Já é oficial que, os diretores da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) vetaram o plantio de maconha no Brasil para uso exclusivamente medicinal. A regulamentação do tema, que entra em vigor 90 dias após publicação no Diário Oficial da União, autorizou o registro e fabricação de remédios à base da erva no país e sua venda nas farmácias. “Voto pela não aprovação e pelo arquivamento da proposta que dispõe dos requisitos técnicos para o cultivo da planta cannabis exclusivamente para fins medicinais e científicos”, afirmou o relator e diretor Antônio Barra Torres .

Seu voto foi acompanhado pela diretora Alessandra Bastos e pelo diretor Fernando Mendes Garcia Neto. William Dib, diretor-presidente do órgão, concluiu: “Por maioria, votamos pelo arquivamento do item 241”, sobre o plantio. 

Qual o motivo do veto, segundo o relator Antônio Barra Torres? 

Torres citou o posicionamento contrário de alguns ministérios do governo ao plantio. Uma dessas análises desaconselha o cultivo em razão da extensão territorial brasileira, que facilitaria o desvio para fins criminais. Ele diz que, para o Ministério da Educação, o assunto se mistura à busca “apaixonada” de usuários pela legalização da “droga”. 

 

“O Congresso Nacional não tem posicionamento quanto ao tema”, afirmou Torres. Segundo ele, o Ministério da Economia não realizou “estudo ou grupo de trabalho sobre a atividade econômica” envolvendo o cultivo da planta. Ele afirmou ainda que em uma reunião anterior da Anvisa foi decidido que a atribuição para decidir sobre o assunto era exclusiva do Ministério da Saúde

 

“Para a Anvisa decidir sozinha, deveria haver uma determinação ministerial.” Antes do voto, Torres citou diversas atribuições da Anvisa para dizer que “na citada lei não consta autorização [da Anvisa] para regular cultivo de plantas sujeito a controle especial”. “Os pontos de partida da agência são as drogas, insumos prontos, produtos finais a partir desses insumos (…) 

 

A Anvisa está atuando como promotora de uma atividade nova no país e demandaria a interação de outros órgãos do governo”, afirmou, antes de dizer que a decisão seria uma “exorbitação de competência”. O relator disse ainda que a Anvisa não poderia regular uma atividade econômica “inexistente no país”. “Não vamos confundir as autorizações judiciais pontuais e pesquisa, estamos falando de cultivar uma planta proscrita para fins comerciais. 

 

(…) A agência não regula o que não existe, mas sobre o que existe. Essa atividade poderá vir a existir.”

 

Medicamento será comercializado em farmácia 

 

Antes disso, os diretores aprovaram o registro e a produção em solo nacional de remédios à base de cannabis. Com a decisão, os produtos feitos com a planta precisam passar pela vigilância sanitária e poderão ser vendidos em farmácias, desde que não sejam de manipulação. 

 

Como mencionado anteriormente, a resolução cria o “produto à base de cannabis”, uma nova classe de produto. Isso significa que o canabidiol ainda não será classificado como medicamento. Os produtos liberados poderão ser para uso oral e nasal, em comprimidos, líquidos, além de óleos. O uso do remédio, no entanto, será autorizado especialmente a quem sofre com graves enfermidades, como epilepsia e tumores.

Em remédios com concentrações de THC —a parte alucinógena da erva— menores de 0,2%, o medicamento deverá ser prescrito com numeração fornecida pela vigilância sanitária e exige renovação da receita em até 60 dias. Acima desse percentual, “o receituário será do tipo A, semelhante ao da morfina”, diz nota da Anvisa. 

 

Por se tratar de um tema bastante polêmico e existirem muitas pesquisas em estudo, os diretores decidiram que a regulamentação de dezembro deverá ser revisada em até três anos. A decisão pede que as empresas mantenham suas pesquisas, como acontece com a aprovação de qualquer medicamento. 

 

Vale ressaltar novamente que, os fabricantes que optarem por importar o substrato da cannabis para fabricação do produto deverão realizar a importação da matéria-prima semielaborada, e não da planta ou parte dela. A comercialização no país ocorrerá exclusivamente em farmácias e drogarias sem manipulação e mediante prescrição médica. 

 

O regulamento serve apenas para o tratamento de humanos, não de animais.

 

A regulamentação 

Sabemos que a utilização da erva para fins medicinais já estava prevista em lei desde 2015, mas ainda faltava regulamentação. As resoluções foram propostas pelo diretor-presidente do órgão, William Dib, e passaram por consultas públicas entre 21 de junho e 19 de agosto. Para serem aprovadas, precisavam ser chanceladas pela maioria dos diretores. Hoje há 14 mil pedidos em andamento na Anvisa para importar o medicamento, com 12,5 mil solicitações já aprovadas. 

 

Apenas neste ano, a Anvisa recebeu 5.321 pedidos de compra de remédios com canabidiol, 47% acima das 3.613 solicitações em todo o ano passado.

 

Não adianta, independentemente de não ter como objeto a droga narcótica, a regulamentação da Cannabis medicinal é um tema controverso e tem levado a debates acalorados. Os críticos se dividem entre os que afirmam que os estudos sobre a segurança não são conclusivos e os que acreditam que a disseminação dos remédios seria apenas o primeiro passo para a completa legalização da maconha.

 

Segundo os defensores, já há evidências científicas suficientes a respeito da segurança dos remédios. Para eles, os doentes não podem mais esperar. 

 

Nós já entendemos até aqui que, não há proibição aos remédios à base de Cannabis no Brasil. A Anvisa já havia liberado a venda do primeiro — e por ora único — medicamento do tipo no país, o Mevatyl, que normalmente é prescrito para conter os espasmos de pessoas com esclerose múltipla. O que está e continuará sendo proibido são o plantio e o processamento no território nacional. Isso deixa de mãos atadas tanto a indústria farmacêutica quanto os cientistas brasileiros.

Proibição do cultivo em território brasileiro dificulta o acesso aos produtos

 

No exterior, há inúmeros remédios disponíveis, aprovados por agências como o FDA (equivalente à Anvisa nos Estados Unidos). O Mevatyl, que é comercializado nas farmácias do Brasil é importado da Inglaterra.

 

Diante das restrições legais estipuladas no 03 de dezembro, aos pacientes com prescrição médica de tratamento com Cannabis restam alternativas ilegais, desgastantes, burocráticas ou caras. Alguns recorrem ao tráfico para obter sementes, plantar a Cannabis de forma clandestina e extrair o concentrado medicinal. Outros pedem habeas corpus preventivos aos tribunais para cultivar a planta sem incorrer em crime. 

 

Há quem solicite à Anvisa autorização para importar medicamentos liberados em outros países. E existem pacientes que pedem à Justiça que obrigue a rede pública de saúde a fornecer-lhes gratuitamente esses remédios estrangeiros.

 

A demanda pela Cannabis terapêutica é crescente no Brasil. Em 2016, a Anvisa concedeu 450 permissões de importação. Em 2018, foram 2.350. Os gastos do Ministério da Saúde para cumprir ações judiciais que determinam a entrega de remédios à base de Cannabis também subiram. Em 2017, o governo federal gastou R$ 280 mil. Em 2018, R$ 620 mil.

 

A ONG Abrace Esperança, da Paraíba, que conta com autorização judicial para plantar Cannabis e vender os medicamentos a preço de custo a um grupo limitado de pacientes, tem uma lista com mais de cem médicos de todo o país que prescrevem esse tipo de tratamento.

Benefícios comprovados da Cannabis

Já foi comprovado cientificamente que, certos princípios ativos da Cannabis são capazes de amenizar dores musculares crônicas e inflamações resistentes aos medicamentos convencionais, por exemplo. Em pacientes que se submetem a quimioterapia, ajudam a controlar as náuseas e os vômitos. 

 

Em doentes com AIDS que perderam muito peso, auxiliam no aumento do apetite. Crianças que sofrem múltiplas convulsões diárias passam a ter crises muito esparsas depois de iniciarem o tratamento com a Cannabis terapêutica.

 

A médica Carolina Nocetti, que integra o Laboratório de Estudos da Dor, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), diz: “Os estudos científicos e a prática médica mostram que os canabinoides são seguros. Não matam nem causam dependência, ao contrário do que pode acontecer com os analgésicos opioides, como a morfina. É claro que os canabinoides podem provocar efeitos colaterais, como todo medicamento, mas são efeitos colaterais muito leves, como fome e boca seca.”

 

Aqui no país, a primeira autorização judicial para a importação de um remédio extraído da Cannabis foi concedida em 2014. A beneficiada foi a menina Anny, que vive em Brasília e sofre de CDKL5, uma síndrome de origem genética que atrasa o desenvolvimento neuropsicomotor e provoca convulsões de difícil controle. A síndrome é tão rara que no Brasil só se tem notícia de 30 pessoas acometidas por ela.

 

O pai da menina, Norberto Fischer, soube do uso terapêutico da Cannabis por meio de famílias americanas que têm filhos com a mesma síndrome. Na época em que ele conseguiu a autorização da Justiça, Anny tinha 6 anos de idade e sofria em torno de 60 crises convulsivas por semana. Ela já havia experimentado inúmeros remédios e até usado um implante que libera impulsos elétricos, semelhante a um marca-passo, mas sempre sem sucesso.

 

Ele conta: “Foi um choque muito forte quando eu soube que o tratamento que estavam adotando nos Estados Unidos era à base de Cannabis. Eu tinha uma imagem muito cristalizada dessa planta como algo que é do mal e precisa ser mantido à distância. Mas, quando a sua filha está quase indo embora, perdendo a vida, porque os tratamentos não funcionam, você passa por cima de todo o medo e de todo o preconceito. Foi assim que consegui trazer a primeira remessa do medicamento para o Brasil.”

 

Fonte: Agência Senado

A Cannabis medicinal pode ser usada por todos?

Não. Nem todo mundo pode usar. Dependendo do paciente, da composição, dosagens, podem ou não existirem contraindicações e reações adversas. O medicamento aprovado pode, por exemplo melhorar muito a vida dos pacientes com espasmos, mas em alguns casos trazer tonturas, fadiga, euforia e depressão como reações adversas, além de dependência. Como qualquer outro medicamento, é bom sempre ter o respaldo do profissional de saúde.

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Você já ouviu falar da Liga Canábica?

Alguns pais da Paraíba se reuniram e conseguiram na Justiça o direito de produzir remédios a partir da Cannabis para melhorar a saúde de seus filhos. Da união nasceu a Abrace, a Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança.

 

Durante anos, eles produziram clandestinamente o óleo de Cannabis. O excedente era enviado para pacientes de todo o país. Até que, em maio deste ano, a Justiça Federal autorizou o laboratório a cultivar e manipular a planta para fins exclusivamente medicinais e o uso dos pacientes com necessidade comprovada.

Para Cassiano Teixeira, diretor executivo da Abrace, foi um alívio. “A justiça foi cumprida. Hoje a gente está vendo os resultados disso, então foi muito certo o que a Justiça fez, dar uma chance para nós, pais, nos uníssemos e produzíssemos o nosso próprio resultado, com uma associação, com uma coisa que possa prestar conta, com funcionários de carteira assinada, para que a gente possa ter a solução e não jogar para o Estado”, fala.

 

Hoje a Abrace produz óleo, pomada e spray que são distribuídos para cerca de mil pacientes em todo o Brasil. Quem tem condições paga uma taxa de aproximadamente R$ 150 por mês, muito menos do que é cobrado pelo remédio que vem de fora do país.

 

Em nota, a Anvisa esclarece que autoriza apenas pessoas físicas a importarem o produto à base de canabidiol, por tempo determinado e com uma quantidade limitada prescrita por um médico. O primeiro medicamento brasileiro contendo Cannabis sativa foi registrado pela Anvisa em janeiro de 2015. A Anvisa havia informado até então que ainda que acompanhava as discussões legislativas sobre a regulamentação do plantio para fins medicinais ou de pesquisa.

Enfim, maconha – Amiga ou Vilã?

Neste ponto já sabemos que a ciência também descobriu que alguns princípios ativos da planta ajudam pacientes com câncer a controlar a ansiedade e a sentir menos dor durante tratamento com quimioterapia. Outra doença que pode ser amenizada é a epilepsia.

 

Atualmente a planta é um produto controlado no Brasil e é permitido o registro de produtos à base de seus princípios ativos, mas o plantio para pesquisa ou fins medicinais no País ainda não está regulamentado. Uma comissão do Senado aprovou recentemente o cultivo, mas o projeto ainda tramita na Casa.

 

A Anvisa também vem autorizando a importação excepcional de produtos à base de substâncias da planta desde 2014, para fins medicinais, mediante prescrição de profissional habilitado para tratamento de saúde. Crianças com epilepsias refratárias têm sido as mais beneficiadas.

 

O comércio e uso recreativo da planta é crime no Brasil. O STF pode julgar um recurso que permitirá descriminalizar o consumo pessoal de pequenas quantidades.

Cannabis ajuda pacientes com câncer

A Cannabis está fazendo a diferença no tratamento de efeitos colaterais de quimioterapia e radioterapia de pacientes com câncer. Paula Dall Stella, diretora científica da Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal, explica que eles têm estudos que comprovam a ação benéfica, por exemplo, como forte estimulante do apetite e da fome.

 

“Tem um momento do tratamento oncológico em que ele passa por uma inapetência, que é a falta de vontade de comer, e também em relação ao sabor dos alimentos. O alimento perde o sabor. Então além dele não ter vontade de comer, o paladar fica alterado”, conta.

Pesquisas científicas também comprovam que a Cannabis ajuda a controlar o humor, alivia sintomas da depressão e da ansiedade e ainda age como um analgésico.

“Ela consegue fazer uma analgesia, muitas vezes adequada, sem o uso de outras substâncias ou, às vezes, ela consegue fazer com que a gente diminua a quantidade de outros medicamentos ou até reduza a miligramagem, por exemplo, de opioides ou outros analgésicos. Eu não conheço nenhum medicamento que tenha tantas ações num só”, conta Paula.

 

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