Vacinação no Brasil

19/11/2020 0 Por Redação CliqueFarma

Hoje o Cliquefarma aborda um assunto de extrema importância e bastante polêmico, a Vacinação no Brasil. Vamos falar sobre a origem de onde tudo começou, porque os números de imunizações vêm caindo a cada ano no país e por que se vacinar é tão necessário! Confira tudo agora mesmo!

História da vacinação no Brasil

Com a Proclamação da República, em 1889, o Estado brasileiro foi consolidado. O cenário sanitário se encontrava caótico e as cidades à mercê de epidemias. Doenças como febre amarela, tuberculose e sífilis estavam em destaque e levaram à morte centenas de pessoas. Para melhorar a imagem do país no exterior, o saneamento foi a solução e, assim, a medicina higienista passou a ter ênfase no Brasil e a direcionar o planejamento urbano das grandes cidades.

 

Como alternativa para minimizar os impactos causados por epidemias, surgiram as vacinas. Elas seriam uma medida de controle para doenças de grande impacto nas condições de vida de uma população, funcionando como forma primária de prevenção e erradicação de diferentes patologias.  

 

Em 1903, o médico e sanitarista Oswaldo Cruz foi nomeado diretor geral de Saúde Pública no país, cargo correspondente atualmente ao de Ministro da Saúde, com o objetivo de erradicar a febre amarela no Rio de Janeiro. Assim surgia o primeiro modelo assistencial de saúde no Brasil, o Modelo Sanitarista, que perdura até hoje com as campanhas anuais de vacinação, por exemplo.

 

No ano seguinte, devido a uma grande incidência de varíola, o médico tentou promover a vacinação da população de maneira autoritária e violenta, na qual profissionais entravam nas casas e vacinavam todos os que estivessem no local. Com essa forma de agir, a população ficou indignada e relutou em receber a vacina. As reações populares ficaram conhecidas como Revolta da Vacina. 

 

Este mesmo ano culminou com a revogação da Lei da Vacinação Obrigatória. Ainda assim, houve êxito das campanhas de vacinação, de forma que a varíola tivesse seu último caso notificado no Brasil em 1971 e, no mundo, em 1977.  

 

Nesse contexto, em 1973, o Programa Nacional de Imunização (PNI) foi formulado por determinação do Ministério da Saúde, com o objetivo de coordenar as ações de imunizações, que se caracterizavam, até então, pela descontinuidade, pelo caráter episódico e pela reduzida área de cobertura. Em 1975 foi institucionalizado o PNI, que passou a coordenar as atividades de imunizações desenvolvidas rotineiramente em todo território nacional.

 

A atuação do PNI alcançou consideráveis avanços ao longo do tempo, ao consolidar a estratégia de vacinação nacional – as metas mais recentes contemplam a eliminação do sarampo e do tétano neonatal. A essas, se soma o controle de outras doenças imunopreveníveis como difteria, coqueluche e tétano acidental, hepatite B, meningites, febre amarela, formas graves da tuberculose, rubéola e caxumba em alguns estados, assim como a manutenção da erradicação da poliomielite.

 

Atualmente, o PNI atua com o Calendário Básico de Vacinação que corresponde ao conjunto de vacinas consideradas de interesse prioritário à saúde pública do país, constituído por 19 vacinas recomendadas à população, desde o nascimento até a terceira idade e distribuídas gratuitamente nos postos de vacinação, Unidades de Saúde da Família (USF) e Unidades Básicas de Saúde (UBS) vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS). 

 

A cada ano são incorporadas novas vacinas ao calendário do PNI, que são oferecidos gratuitamente à população, durante campanhas ou na rotina do programa, prezando pelos princípios do SUS de universalidade, equidade e integralidade.

 

O PNI produz grande parte das vacinas utilizadas no país e ainda exporta vacinas com qualidade reconhecida e certificada internacionalmente pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Além disso, possui a Rede de Frio, que interliga os municípios brasileiros em redes de armazenamento, distribuição e manutenção de vacinas em temperaturas adequadas de maneira descentralizada, nos níveis nacional, estadual e municipal.

 

Com as novas diretrizes estabelecidas pelo SUS, o PNI passa a atuar cada vez mais de maneira descentralizada e como instrumento de equidade. Atualmente, as ações do programa são realizadas pelos 5.570 municípios brasileiros, os quais, além das vacinações obrigatórias da rotina, executam estratégias especiais como campanhas em postos fixos e móveis, vacinação em escolas, vacinação de bloqueio e investigação de eventos adversos e óbitos temporalmente associados à vacinação.

 

O PNI atuando com o SUS favoreceu a redução das desigualdades sociais, uma vez que permitiu o acesso de toda a população a uma enorme gama de vacinas, obtendo o resultado de redução de doenças que impactaram diretamente a vida de milhões de brasileiros, em particular os mais vulneráveis.

 

Novo calendário nacional de vacinação do Ministério da Saúde

O Ministério da Saúde divulgou novas informações em seu site oficial sobre o calendário anual de vacinação do ano vigente. A novidade é que, a partir da primeira quinzena de julho, a pasta vai solicitar às pessoas que viajarão ou retornarão da República Democrática do Congo e Angola que apresentam o Certificado Internacional de Vacinação e Profilaxia (CIVP). A medida visa prevenir uma eventual epidemia de febre amarela.

Calendário nacional de vacinação

Idade Vacinas
Ao nascer – BCG (dose única)

– Hepatite B

2 meses – Pentavalente 1ª dose (Tetravalente + Hepatite B 2ª dose)

– Poliomielite 1ª dose (VIP)

– Pneumocócica conjugada 1ª dose

– Rotavírus 1ª dose

3 meses – Meningocócica C conjugada 1ª dose
4 meses – Pentavalente 2ª dose (Tetravalente + Hepatite B 2ª dose)

– Poliomielite 2ª dose (VIP)

– Pneumocócica conjugada 2ª dose

– Rotavírus 2ª dose

5 meses – Meningocócica C conjugada 2ª dose
6 meses – Pentavalente 3ª dose (Tetravalente + Hepatite B 3ª dose)

– Poliomielite 3ª dose (VIP)

– Influenza (1 ou 2 doses anuais)

9 meses – Febre Amarela (dose única)****

– Influenza (1 ou 2 doses anuais)

12 meses – Pneumocócica conjugada reforço

– Meningocócica C conjugada reforço

– Tríplice Viral 1ª dose

– Influenza (1 ou 2 doses anuais)

15 meses – DTP 1º reforço (incluída na pentavalente)

– Poliomielite 1º reforço (VOP)

– Hepatite A (1 dose de 15 meses até 5 anos)

– Tetra viral (Tríplice Viral 2ª dose + Varicela)

– Influenza (1 ou 2 doses anuais)

4 anos – DTP 2º reforço (incluída na pentavalente)

– Poliomielite 2º reforço (VOP)

– Varicela (1 dose)

– Influenza (1 ou 2 doses anuais)

9-14 anos – HPV 2 doses*

– Meningocócica C (reforço ou dose única)**

Adolescentes, Adultos e Idosos – Hepatite B (3 doses a depender da situação vacinal)

– Febre Amarela (dose única p/ não vacinados ou sem comprovante de vacinação) ****

– Tríplice Viral (2 doses até os 29 anos ou 1 dose em > 30 anos. Idade máxima: 49 anos)

– DT (Reforço a cada 10 anos)

– dTpa (para gestantes a partir da 20ª semana, que perderam a oportunidade de serem vacinadas)***

*HPV: Esquema básico com duas doses com 6 meses de intervalo em meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos. A vacina HPV também está disponível para indivíduos imunodeprimidos (indivíduos submetidos a transplantes de órgãos sólidos, transplantes de medula óssea ou pacientes oncológicos) e vivendo com HIV/Aids, que deverão receber o esquema de três doses (0, 2 e 6 meses) para ambos os sexos, nas faixas etárias entre 9 e 26 anos de idade.

 

A vacina pneumocócica 23–valente (polissacarídica) está indicada para pessoas a partir dos 60 anos em condições clínicas especiais e população indígena a partir dos 5 anos de idade.

 

Dengue: A vacina para prevenção da dengue é recomendada somente para indivíduos de 9 aos 45 anos de idade residentes em áreas endêmicas que já foram previamente expostos ao vírus da dengue de qualquer sorotipo. Contraindicado para indivíduos soronegativos, gestantes, alérgicos aos princípios ativos da vacina.

 

Hepatite B: Oferta da vacina para toda a população independente da idade e/ou condições de vulnerabilidade, justificada pelo aumento da frequência de atividade sexual em idosos e do aumento de IST nesta população.

 

Poliomielite: A 3ª dose é a vacina inativada da pólio (VIP), a exemplo do que já ocorre com as 1ª e 2ª doses da vacina. As doses de reforço aos 15 meses e 4 anos e as campanhas de vacinação continuam aplicando a vacina VOP (bivalente).

 

Pneumocócica: Esquema básico com duas doses (aos 2 e 4 meses) e dose de reforço aos 12 meses (podendo ser aplicada até os 4 anos). Crianças não vacinadas anteriormente podem receber dose única dos 12 meses aos 4 anos.

 

Hepatite A: Aplicada aos 15 meses, podendo ser aplicada até os 5 anos.

 

Vacinas tríplice viral e varicela: O ministério disponibiliza duas doses de vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) para pessoas de 12 meses até 29 anos de idade e uma dose da vacina varicela (atenuada) para crianças até quatro anos de idade.

 

**Meningocócica: Esquema básico com duas doses (aos 3 e 5 meses) e dose de reforço aos 12 meses (podendo ser aplicada até os 4 anos). Crianças não vacinadas anteriormente podem receber dose única dos 12 meses aos 4 anos. O Ministério passa a disponibilizar a vacina conjugada para adolescentes de 12 a 13 anos. A faixa-etária será ampliada, gradativamente, até 2020, quando serão incluídos crianças e adolescentes com 9 anos até 13 anos.

 

***dTpa: uma dose a partir da 20ª semana de gestação, para aquelas que perderam a oportunidade de serem vacinadas durante a gestação. Administrar uma dose no puerpério, o mais precocemente possível.

 

**** Febre Amarela: indicada às pessoas residente ou viajantes para as áreas com recomendação de vacinação. Atentar às precauções e contraindicações para vacinação. Esta vacina está indicada para todos os povos indígenas, independentemente da Área com Recomendação para Vacinação (ACRV). 

Por que as taxas de vacinação têm diminuído no Brasil?

Na contramão do que ocorre no resto do mundo, a redução da taxa de vacinação no Brasil nos últimos anos acende um alerta vermelho para a saúde pública no país. Recentes surtos de sarampo, por exemplo, demonstram como doenças controladas ou mesmo erradicadas correm o risco de voltar e até provocar epidemias.

 

A queda de alguns pontos percentuais na taxa de imunização já pode levar a um aumento exponencial do número de casos da doença. Por isso a vacina tem grande importância, não só como proteção individual, mas também coletiva. Cada pessoa imunizada protege não apenas a si mesma, mas também as demais — inclusive aquelas que, por alguma razão, não podem receber a vacina.

 

De fato, o Brasil tem um dos mais avançados programas de vacinação do mundo, oferecendo um extenso rol de imunobiológicos pelo Sistema Único de Saúde. Com essa recente queda nos resultados das campanhas, no entanto, podemos pagar um alto preço em nome desse sucesso.

 

Então, para entender melhor por que isso está acontecendo e quais são os riscos envolvidos, vamos abordar as questões por trás de tudo isso agora mesmo.

Afinal, o que está acontecendo com a queda do número de imunizações pelo país?

Até 2010, os resultados da imunização no cenário global eram bastante insatisfatórios. A taxa de vacinação contra rubéola e sarampo, por exemplo, era apenas de 35%. Já no Brasil, a situação era outra. O país estava à frente no que diz respeito à imunização, tendo realizado grandes campanhas, como a da rubéola em 2018 — a maior do mundo.

 

Esse cenário mundial, segundo a Unicef e a Organização Mundial da Saúde (OMS), tem melhorado bastante. O Brasil, no entanto, enfrenta um fenômeno contrário. Conforme dados do Ministério da Saúde, publicados no Estadão, nossos números (embora ainda sejam relativamente altos) vêm caindo nos últimos anos.

 

Se em 2014 tínhamos uma taxa de vacinação próxima de 100% contra a tríplice viral, em 2017 chegamos a 85%. Já contra a pólio, houve uma queda de 94,5%, em 2015, para 78,5% em 2017. Embora esses números ainda sejam relativamente altos, a situação preocupa, pois a proteção adequada gira em torno de 95%, havendo risco de retorno dessas e de outras doenças se a queda de imunização da população continuar.

 

O sucesso das campanhas, aliás, é uma das possíveis causas para essa queda da taxa de vacinação no Brasil, como veremos a seguir.

Percepção enganosa de que o perigo acabou

Doenças que já foram erradicadas no país — como a poliomielite, por exemplo — ainda podem voltar, uma que vez que persistem em outros lugares do mundo. Essa erradicação por aqui, no entanto, acabou causando na população brasileira uma falsa sensação de segurança e, principalmente, a perda do senso de urgência em vacinar as crianças.

 

A despeito das campanhas de imunização lançadas e divulgadas pelo governo, muitos pais e familiares acabam se esquecendo de levar seus filhos para vacinação. Além disso, vários nunca ouviram falar em pólio, sarampo etc., por isso, não entendem a gravidade do risco. Em suma, temos um cenário de negligência e procrastinação.

Falta de confiança e informação

Também é preocupante o número crescente de pessoas que deixa de vacinar seus filhos por falta de confiança e informação sobre o assunto. Isso, na verdade, é fruto de um movimento mundial antivacinas, que chega ao Brasil especialmente por meio de fake news espalhadas pelas redes sociais.

 

A grosso modo, paira no ar uma ideia de que as vacinas não são seguras ou não têm eficácia, sendo desnecessárias ou perigosas para a saúde. Um exemplo disso ocorre com a vacina contra a gripe, que muitas pessoas deixam de tomar por medo de reações adversas, achando que podem ficar doentes.

Crise econômica

Por fim, temos a crise econômica, que afeta a ida da população aos postos de saúde — seja pelo gasto com transporte, seja por falta de tempo em função do trabalho (medo de perder o emprego ou deixar de produzir o suficiente etc.) ou mesmo pela redução do acesso à informação.

 

Além disso, na década passada houve uma popularização das clínicas particulares entre a classe mais alta, oferecendo vacinas mais completas e outras que não fazem parte do calendário do SUS. Então, com a crise atual, muitas dessas famílias deixaram de pagar por esse serviço, mas não criaram, por outro lado, o hábito de se vacinar na rede pública.

O que os médicos podem fazer para reverter esse quadro?

Quando se trata de campanhas de vacinação e conscientização das pessoas, uma boa comunicação é essencial. E, nesse sentido, o médico é uma peça chave para reverter o cenário atual de queda. Vejamos, a seguir, o que pode ser feito.

Divulgar campanhas

A exemplo do que acontece com outras campanhas de conscientização, como o Outubro Rosa, é essencial que os médicos participem da divulgação. Isso deve ser feito não apenas em seus consultórios, mas também nas suas redes sociais e demais canais de comunicação, em seus círculos de convivência etc.

 

Aliás, essa atenção à promoção da saúde e da vacinação também faz parte da humanização do atendimento, tão em alta na medicina atual. Médicos são vistos como autoridades em saúde, o que garante à sua opinião um peso maior. Por isso, independentemente de haver ou não uma relação direta entre a sua especialidade e as doenças em questão, esses profissionais precisam se posicionar em favor das vacinas.

Alertar sobre a importância da prevenção

Mesmo quando não há nenhuma campanha em andamento, é dever do médico alertar a população sobre a importância da prevenção, incluindo a vacinação como medida fundamental para isso. Além do pediatra, que lida com carteiras de vacinação em seu dia a dia, outros médicos precisam se engajar nessa luta.

 

Levar essa informação aos jovens e adultos é um dos desafios do Programa Nacional de Imunização (PNI), por exemplo, até porque o calendário de vacinação do SUS inclui todas as faixas etárias. Afinal, se não imunizarmos pessoas adultas, há um risco de deslocamento de faixa — quando uma doença tipicamente da infância passa a ocorrer na fase adulta, a exemplo da caxumba.

 

Enfim, como vimos, recuperar os índices de imunização é uma das preocupações primordiais do Ministério da Saúde, tanto que, este ano, foi lançado o Movimento Vacina Brasil. É essencial, portanto, que os médicos estejam atualizados sobre o calendário de vacinação e ajam como multiplicadores dessa informação, para melhorar a taxa de vacinação em todo o país.

Mas afinal, por que vacinas são tão importantes?

A importância da vacinação vai muito além da prevenção individual. Ao se vacinar, você está ajudando toda a comunidade a diminuir os casos de determinada doença.

 

Como nós vimos até o momento, as vacinas são substâncias que possuem como função estimular nosso corpo a produzir respostas imunológicas a fim de nos proteger contra determinada doença. Elas são produzidas a partir do próprio agente causador da doença, que é colocado em nosso corpo de forma enfraquecida ou inativada. Apesar de não causar a doença, as formas atenuadas e inativadas do antígeno são capazes de estimular nosso sistema imunológico.

Como a vacina atua no nosso corpo?

Quando nos vacinamos, apresentamos ao nosso corpo um antígeno até então desconhecido. O corpo passa, com isso, a produzir anticorpos contra ele. Nesse primeiro momento, a produção de anticorpos é relativamente lenta. 

 

Além da produção de anticorpos, o organismo produz células de memória, ou seja, células que, ao serem expostas novamente ao mesmo antígeno, serão capazes de produzir anticorpos mais rapidamente.

 

Em virtude da presença de células de memória, uma pessoa vacinada consegue que seu sistema imune atue de maneira mais rápida, evitando que a doença se desenvolva. Assim sendo, a vacina atua como um agente preventivo, devendo ser utilizada antes do contágio. Ela é considerada uma forma de imunização ativa, pois estimula nosso organismo a produzir substâncias de defesa.

Por que devo me vacinar e vacinar meus filhos?

  • Redução dos números de casos de doenças infecciosas em toda a comunidade, uma vez que a transmissão é diminuída;
  • Diminuição do número de hospitalizações;
  • Redução de gastos com medicamentos;
  • Redução da mortandade;
  • Erradicação de doenças.

As vacinas realmente podem erradicar doenças?

Ao vacinar a população, diminuímos a incidência de determinada doença. À medida que toda a população vai sendo vacinada, os índices caem até que nenhum caso seja mais registrado, pois toda a população está protegida.

 

Apesar de parecer, muitas vezes, impossível proteger toda a população, a imunização tem dado resultados no Brasil e no mundo. Em nosso país, já ocorreu a erradicação da poliomielite e da varíola graças à utilização de vacinas. 

 

Além disso, segundo a Fundação Oswaldo Cruz, ocorreu a eliminação da circulação do vírus autóctone do sarampo em 2000 e da rubéola desde 2009. Outras doenças também tiveram seus casos reduzidos, como é o caso do tétano neonatal.

Algumas perguntas e respostas sobre a vacina contra o coronavírus

A lista de perguntas e respostas abaixo tem por objetivo satisfazer muitas curiosidades, dirimir dúvidas, expor quais temores são – ou não – justificados e mostrar como navegar essa paisagem que é tão nova para todos os que não são profissionais de microbiologia, vacinologia e outras áreas altamente especializadas.

 

Um esforço especial foi feito para reduzir ao máximo o uso de termos excessivamente técnicos e evitar que as explicações se perdessem nas complexidades do funcionamento do sistema imune – que é fascinante e merece um tratamento à parte.

 

Quais tipos de vacinas estão sendo testadas contra COVID-19?

Existem várias estratégias de vacinas sendo testadas para COVID-19. Podemos classificar as vacinas por geração, de acordo com a tecnologia utilizada.

Vacinas de primeira geração 

São as mais antigas, e já fazemos vacinas assim há mais de 70 anos. São as vacinas que usam microrganismos inativados e microrganismos atenuados, que não induzem doenças, mas estimulam o sistema imune. Essas vacinas são fáceis de obter, basta cultivar o vírus ou bactéria e em seguida inativá-lo com algum produto químico ou calor. 

 

No caso das atenuadas, é preciso reproduzir o microrganismo várias vezes, até encontrar uma variante que não cause doença. Algumas vezes dá para usar um microrganismo semelhante ao desejado, que causa doença em animais e não em humanos. 

Vacinas de segunda geração

Essas vacinas já não usam o microrganismo inteiro, mas apenas pedaços. São chamadas vacinas de subunidades, e vão desde vacinas mais antigas que usam toxinas desnaturadas – chamadas toxoides, como a vacina de tétano, por exemplo –, até vacinas muito modernas, que usam proteínas purificadas. Essas proteínas representam apenas um pedaço do microrganismo. Muitas vacinas para COVID-19 usam por exemplo, a proteína Spike (S) inteira. Essas são as proteínas com formato de coroa que recobrem o vírus. Ou mesmo só uma pequena porção dessa proteína. Mas apenas isso não é suficiente para que o sistema imune reaja bem. Essas proteínas também requerem, portanto, algum apoio, sejam adjuvantes ou outras tecnologias, como nanopartículas. 

Vacinas de terceira geração

São as vacinas genéticas e as vacinas vetorizadas. São técnicas modernas, e, no caso das genéticas, que ainda nem chegaram ao mercado. Ambas são baseadas em informação genética, mas usam estratégias diferentes.

 

As vacinas vetorizadas utilizam vírus vivos, mas incapazes de causar doença porque são inofensivos e/ou enfraquecidos. Esses vírus são usados como vetor – veículo, uma casca – que carrega uma sequência genética que codifica uma proteína do vírus que realmente interessa. No caso da COVID-19, um vetor viral carrega uma sequência do SARS-CoV-2, por exemplo, os genes que produzem a proteína S.

 

As vacinas genéticas, de DNA ou mRNA, usam só informação genética. Não trabalham com organismos vivos ou mortos. A ideia, neste caso, é transferir a informação que codifica uma proteína do microrganismo de interesse para dentro da célula humana, e deixar a própria maquinaria celular fazer todo o trabalho. A partir da informação, a célula produz a proteína de interesse e a apresenta para o sistema imune. No caso do DNA, utiliza-se um plasmídeo (uma estrutura circular de DNA) para levar a informação genética até as células do corpo humano. Já as moléculas de mRNA vão dentro de um veículo, uma cápsula de gordura.

 

Ambas são muito fáceis de produzir, não precisam de laboratório especial, são rápidas, baratas, e rendem muitas doses por litro. Também, como as de vetor, são versáteis, e podemos mudar de doença como quem muda de roupa, simplesmente trocando os genes.  

Qual vacina tem mais chance de funcionar?

Todas as tecnologias são promissoras, e várias vacinas para COVID-19 já estão em fase 3, ou seja, já passaram pelas fases 1 e 2, de segurança e marcadores de imunidade. Mostraram que são seguras a curto prazo, e capazes de induzir resposta imune. Na fase 3, serão testadas para eficácia, ou seja, para ver se funcionam mesmo, e se conferem proteção. 

 

Todas têm chance de funcionar na fase 3. Mas pode acontecer de uma ser melhor para idosos, e outra só funcionar em jovens. Pode ser que uma seja dose única e outra precise de duas ou três doses. Pode ser que uma seja mais eficaz, e proteja mais pessoas do que outra. Isso só saberemos testando.

 

Fazer vacinas tão rápido como agora é perigoso?

Não, se todas as etapas forem respeitadas. O que não se pode é pular etapas. Algumas empresas juntaram as fases 1 e 2, para ganhar tempo. Mas não pularam nenhuma. O estado de emergência justifica a pressa, mas não o descuido que poderia colocar vidas em risco. Fazer vacinas em dois anos já é um tempo recorde, apressar mais do que isso seria irresponsável, assim como liberar vacinas antes de completar a fase 3, como alguns países estão fazendo.

Pode acontecer de nenhuma vacina funcionar para COVID-19?

Pode, mas é improvável. Temos muitas vacinas, com tecnologias diferentes, sendo testadas, e pelo menos uma delas, mais provavelmente algumas, deve funcionar. É preciso ter em mente, no entanto, que as primeiras vacinas não serão necessariamente as melhores. Pode ser que a eficácia seja baixa, pode ser que não funcionem bem em alguns grupos – idosos, por exemplo –, pode ser que sejam muito difíceis de transportar. Mas logo atrás, vêm outras.

Quantas doses de vacina serão necessárias para COVID-19?

Depende da estratégia vacinal que está sendo usada, e da capacidade das vacinas de provocar uma resposta imune robusta. Vacinas inativadas e de subunidades costumam precisar de mais doses, e vacinas vivas, de vetores, menos. Mas isso está longe de ser uma regra fixa. No caso da COVID-19, quase todas as vacinas em desenvolvimento vão precisar de duas doses. Até agora só duas empresas, J&J e Merck, estão tentando criar um produto de dose única.

Vacinas podem fazer mal?

Vacinas só são licenciadas para uso humano depois de passar por todas as etapas de teste e avaliação e se mostrarem extremamente seguras. E mesmo após uma vacina conseguir a aprovação das agências responsáveis para autorizar o uso humano, há um acompanhamento para detectar eventuais efeitos nocivos de longo prazo, ou muito raros. Qualquer efeito adverso que possa ser relacionado com a vacina chama a atenção dos órgãos responsáveis, que lançam uma investigação.

Vacinas contêm produtos tóxicos?

Não! Definitivamente não! Todos os componentes que entram numa vacina são testados de forma exaustiva. Além do princípio ativo, vacinas podem conter conservantes (para evitar que a vacina estrague ou seja contaminada) e adjuvantes. O adjuvante é um material que incentiva a reação do sistema imune – ele amplifica o efeito da vacina. Os mais usados em seres humanos são aqueles à base de alumínio. 

 

A segurança desse componente foi estabelecida em inúmeros estudos, e ele vem sendo usado em formulações vacinais por décadas. Porém, por não apresentar uma eficácia suficiente para proteger contra organismos mais complexos, existe a necessidade de desenvolver novas tecnologias.

Outro composto que já foi acusado de toxicidade é o conservante timerosal. Por ser um uma molécula que contém o elemento químico mercúrio, ele é às vezes associado, na imaginação popular, ao metal mercúrio, que é tóxico. Mas, sob a forma de timerosal, o mercúrio não se acumula no corpo humano. 

 

Além disso, as quantidades utilizadas são absurdamente pequenas, muito menores do que a quantidade de mercúrio permitida na água que bebemos. Por fim, somente algumas vacinas ainda usam timerosal como conservante. O produto começou a ser deixado de lado em 2001.

É verdade que o problema não é a vacina em si, mas o fato de termos muitas vacinas no calendário vacinal, e essa quantidade enorme de antígenos, de uma vez pode sobrecarregar o sistema imune das crianças e acabar sendo tóxico?

Falso. Somos naturalmente expostos a milhares de antígenos desde o nascimento. As vacinas do calendário contribuem com aproximadamente 300 antígenos durante os primeiros dois anos de vida, segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA. Esses antígenos usariam mais ou menos 0,1% do sistema imune, e as vacinas mais modernas usariam menos ainda, porque contêm apenas pedaços dos micro-organismos.

Quanto tempo a vacina vai durar? Vai ser preciso tomar todo ano, como a da gripe?

De acordo com a OMS, uma vacina precisa proteger por pelo menos um ano. Mas, frente à crise da pandemia, já se considera aceitável uma vacina que possa proteger por, no mínimo, seis meses.

 

Ainda não é possível saber com qual periodicidade será preciso tomar a vacina para COVID-19. Talvez uma vacinação só baste para a vida toda, talvez não. Precisamos esperar primeiro as estratégias vacinais anti-COVID-19 que serão licenciadas para uso humano. Com isso, saberemos a capacidade de induzir proteção dessas vacinas, se serão capazes de produzir memória imunológica e por quanto tempo.

Quem já teve COVID-19 vai precisar tomar vacina?

Provavelmente não, pois em teoria uma pessoa que foi infectada com o SARS-CoV-2 adquire imunidade para se proteger de uma segunda infecção. Essa é chamada vacinação natural. Mas com notícias aparecendo sobre reinfecções, essa possibilidade precisará ser avaliada por uma comissão técnica para decidir as estratégias a serem utilizadas.

Se tiver mais de uma vacina disponível, eu posso tomar mais de uma?

O recomendado é que não. A pessoa vai tomar a vacina que melhor encaixar para sua faixa etária e obter as melhores características que cada vacina pode proporcionar. Para estudos futuros, poderão aparecer experimentos que testem se uma vacina pode complementar a outra. Por exemplo, em uma primeira dose pode utilizar uma vacina inativada e em uma segunda dose uma vacina de DNA, ou seja, haverá futuros testes que possam combinar e obter o melhor de cada formulação. Mas, até obtermos esses resultados, não é recomendado a pessoa procurar se vacinar com todas as vacinas que aparecerem (mesmo que sejam só duas), para evitar qualquer imprevisto.

Assim que tiver vacina, acabou a pandemia?

Não. Vacinas aprovadas não se transformam automaticamente em vacinas no posto de saúde, disponíveis para toda a população. É preciso escalar a produção, e para isso, fábricas precisam ser construídas ou ampliadas. Depois, é preciso produzir frascos para envasar todas essas doses, e seringas para aplicar. 

 

Arranjos de armazenamento e transporte precisam ser feitos, e cadeias de frio precisam ser criadas, com as temperaturas adequadas para cada vacina. Uma vacina que precisa de freezer -70º C, por exemplo, pode ser inviável para um país como o Brasil, onde há regiões onde o próprio abastecimento de eletricidade é irregular. Depois de toda a logística ajustada, precisa-se criar as campanhas de vacinação

 

Escolher os grupos prioritários, treinar agentes de saúde, fazer as campanhas publicitárias. Tudo isso leva tempo e precisa de planejamento estratégico. Além disso, demora para vacinar 200 milhões de pessoas. A campanha da gripe, só no estado de SP, precisou de três meses para vacinar 14 milhões, isso porque é uma vacina já conhecida e disponível no SUS.

Percebeu como é importante e sério esse assunto? Esperamos que você esteja com a sua carteira de vacinação em dia, ok?! E se tiver qualquer dúvida quanto a este assunto, pode deixar seu comentário no box abaixo que teremos o maior prazer em interagir com você!